…é o que corremos o risco de concluir se ouvirmos as mulheres que têm bebês ou crianças pequenas. Elas se queixam que recebem críticas diretas e indiretas vindas de todas as direções; sempre há alguém para fazer alguma observação que vem revestida de um parecer em forma de julgamento. Se o bebê chora e não para de chorar é porque com certeza a mãe está fazendo uma bobagem. Se não dorme, ou dorme pouco, claro, é porque a mãe deixou escapar uma iniciativa óbvia. Se não está ganhando peso suficiente, aí sim que as opiniões ácidas correm a toda prova.
Tentemos pensar sobre essa questão. Vamos fazer duas hipóteses que talvez esclareçam um pouco o porquê dessa verve julgadora e crítica em relação as mulheres que maternam. A primeira hipótese é de que há uma idealização em relação às mães, isto é, todos nós estamos à procura de uma mãe que nunca falha, perfeita, e principalmente absoluta na leitura das necessidades do bebê. Raciocínio que se desdobra em outro: imaginar um bebê que nunca sofre, que não tem dor, não chega nem a sentir fome. Um bebê vivendo num mar de prazer e em perfeita serenidade. Cada um de nós queria ter sido esse bebê; é como se sentíssemos saudade de uma situação que nunca aconteceu nem foi vivida, mas imaginada e desejada. Uma mãe superpoderosa, e um bebê imerso num estado de constante beatitude. Só para não deixar passar: um bebê nesta situação simplesmente não se desenvolve, não cresce e uma mãe superpoderosa ainda não foi revelada em nenhum lugar do mundo. Não há crescimento sem dor. Maternar envolve algumas dúzias inteiras de perguntas com várias respostas possíveis e uma tonelada de vacilação misturada com perplexidade.
A segunda hipótese você conhece bem. Ouvir um bebê chorar costuma ser desesperador, vê-lo se contorcer de dor, ficar inquieto é desconfortável e um tanto aflitivo. Portanto pelo amor de Deus acaba logo com isso, dá um jeito faz alguma coisa o que você está esperando? é o que todo mundo quer. O que muita gente também sabe é que as vezes não tem outro jeito. Não há o que fazer, é ficar junto e esperar.
Esclarecedora foi a experiência de Caroline Dias, enfermeira colaboradora do Gamp 21, relatada no prontuário de consultoria domiciliar. Ao chegar à residência da nova mãe, também enfermeira, ela encontra uma terceira enfermeira realizando uma aplicação de laser. Ou seja, três enfermeiras se encontram e as três especialistas na área materno infantil. Mas agora em posições muito diversas. A mãe enfermeira pede, sem nenhum constrangimento, ajuda. Está atônita. Diz ”: sabia que era difícil, mas não sabia que era tanto. Não sei o que fazer”. Ela está no direito de não saber. Porque quem comparece agora é a mulher, mãe; a enfermeira entrou de licença.
Para além do fato, muito além, de que no puerpério a mãe está tomada por um conjunto enorme de sensações, no corpo e na alma, e somado a isso ainda há um bebê que precisa muito dela. E vejam, não se trata apenas de conhecimento, de saber fazer. Envolve muito mais. Se envolvesse só (“só” é modo de falar) técnica e conhecimento será que nossa mãe estaria tranquila?
Não. Porque a tal técnica e conhecimento não é universal, não vale sempre, nem para todos. A quantidade de informação à disposição é prova disso: apesar delas as mães continuam sem respostas precisas e únicas. Continuam dependendo da sua observação e da sua capacidade de improvisar, inventar respostas. E claro, ao erro e ao acerto. Como bem disse uma participante da Roda: “é difícil sabermos tudo de tudo, afinal os bebês sentem, sabem. Mas sempre dá para mudar o percurso a tempo”. O tudo de tudo está bem colocado, porque não se trata só da amamentação (já bem complexa), sono (um tema sem fim), cólicas, evacuação. A lista é longa e na medida que o bebê cresce ela aumenta vertiginosamente. E com isso a pressão de saber o que é melhor e os riscos do “percurso criticável “.
A fila da crítica é maior. Pequena aquela de quem põe a mão na massa e ajuda a encontrar uma boa resposta.





