Os outros do título são todos aqueles que não cuidam dele, e nem mesmo tem qualquer responsabilidade com ele. Não são seus cuidadores, e não poucas vezes, têm qualquer relação especial com eles.
As mulheres, mães de bebês, se queixam de que adultos, nas mais diferentes circunstâncias se “apropriam” momentaneamente dos bebês de um modo naturalizado, como se fosse da ordem do dia. Afinal quem não gosta de bebês?
Nossa narradora está participando de uma festa, num restaurante, e se senta um pouco afastada para amamentar seu bebê. Lá vem um rapaz, muito animado e sem mais arranca o bebê do seu colo e vai “passear” com ele pela festa. A mãe, surpreendida fica sem ação pela violência do gesto e, atônita, observa o rapaz exibir a criança, tal qual um troféu, entre os convidados.
Aflita nossa segunda mãe conta que estava junto com o bebê e o marido aguardando a chamada num laboratório, quando, assim sem mais, a senhora que estava sentada ao seu lado toma a mão do bebê na sua e a beija efusivamente. Mãe e pai, estupefatos pelo gesto da senhora, só observam, sem condição de tomar qualquer iniciativa.
Em reuniões de família, onde as pessoas se conhecem, os pais também são surpreendidos com essa “tomada” dos seus bebês sem nenhuma solicitação ou pedido prévio. Talvez pudéssemos pensar que essa falta de cerimônia e por que não, de respeito, se deva a uma ideia de que o bebê é de todos. Herança do princípio indígena de que a aldeia é responsável pelo cuidado com as crianças, mas mal aplicada. Aliás, bem mal. Porque tomar a criança dos pais não envolve rigorosamente nenhum cuidado ou zelo, mas apenas o prazer momentâneo do tomador. De quê prazer se trata?
Na questão dos cuidados aos bebês, do ponto de vista político e jurídico, o estado supõe que pais se responsabilizarão pelo filho, uma vez que nascem imaturos e incapazes de cuidarem de si mesmos. O estado interfere nos casos em que os responsáveis “naturais”, por alguma razão, falhem, ou são incapazes de assumir a responsabilidade pela atenção ao filho. Quando se pergunta quais cuidados e como, as instituições, estado e família se confundem um tanto, pois não existe um limite claro onde termina um e começa outro.
Sua majestade, o bebê.
Consultemos Freud para nos ajudar a pensar. Ele chama o bebê de “Sua Majestade, o bebê”. Isto é, dá a ele um lugar importante e central no universo afetivo dos pais. Mas por quê? O nascimento de um filho leva os pais a reviveram sua própria infância, quando eles próprios eram pequenos, amados e muito atendidos pelos pais (na melhor das hipóteses). Aprenderam com a vida e a experiência de vive-la que não correspondem mais àquelas pessoas que os pais viam quando eles eram pequenos: príncipes, maravilhosos e perfeitos. Voltam a reproduzir o mesmo que viveram com os pais, agora com os próprios filhos, maravilhosos e perfeitos, apesar de suas eventuais dificuldades ou imperfeições. Mesmo porque a perfeição não combina com a vida. Isto é, por intermédio do filho, podem, por um intervalo de tempo, voltar a se sentir Sua Majestade. O bebê passa a representar para os pais a possibilidade de realizar o que não foi possível realizar; o bebê se transforma na aposta do sonho do qual a vida nos obrigou, a nós adultos, a abrir mão.
Não pensem que essas questões são fúteis ou exageradas. Não. Ao contrário. Do ponto de vista da constituição psíquica do bebê, ser identificado como potencial realizador dos ideais dos pais, é condição importante para o desenvolvimento. Pois bem, os tais “tomadores” de bebês, gostariam de ocupar, mesmo que por alguns instantes, o lugar dos pais, e “tomar” o bebê como representante de um futuro promissor? Não sabemos.
Por que os adultos se sentem tão à vontade para beijar um bebê, tirá-lo do colo da mãe? Isso não se dá com crianças maiores – elas se defendem, recusam, não se dá entre adultos. Beijar adultos ou levá-los, sem seu consentimento, para dar uma volta, é considerado um ato de violência.
Tentando responder à pergunta vamos tomar a liberdade de nos valer da fala de uma participante da Roda:” o Pedro aprendeu a cuspir. Agora além da comida e das babas, golfa e cospe. Foi tudo na minha cara. Tanta coisa para aprender”. O bebê se torna engraçadinho e muito lindo pelo investimento amoroso dos pais, porque de fato é preciso dar um significado para suas fezes, pums, vômito, leite que volta, vermelhidão na pele, choro. Como nossa mãe bem disse há tanto a aprender, isto é, a transformar seus produtos em bons produtos. A mãe aprende a “ler” as manifestações do bebê e transformá-las em palavras, dar um sentido e um objetivo a elas. É exatamente assim que o bebê é introduzido na linguagem e, portanto, na cultura. Fazer essa leitura não é nada fácil e para tanto a mãe se transforma no bebê e o bebê na mãe. Forma-se entre a mãe e o bebê uma intimidade, intimidade muito particular. Esta relação tão próxima é fundamental para nossa existência, constrói a base que vai nos acompanhar a vida toda.
Fazemos aqui a hipótese que “tomar” o bebê da mãe é uma tentativa de reencontrar essa intimidade inicial, agora perdida. Uma relação que já fez parte da nossa vida, mas da qual tivemos que abrir mão para nos tornarmos autônomos, falar e poder aprender. É a mãe quem devagar introduz o bebê num mundo para além dela, apresenta-lhe o pai, os avós, os brinquedos. Ela abre mão desse lugar tão privilegiado diante dele para que ele cresça e que ela possa voltar devagar, a se ocupar, além dele, dela mesma, do companheiro, do trabalho.
Sua Majestade o Bebê, aquele de quem Freud nos fala, deve ser devidamente destronado, isto é, perder o lugar privilegiado diante dos pais, como aquele que seria e realizaria aquilo que não foi possível ser e realizar para eles. Pegar um bebê no colo nos faz chegar mais perto de quem já fomos – se tivemos essa sorte – um magnífico Rei.





