A equipe do Gamp 21 tem o hábito de trocar informações e colaborar uns com os outros. Não pensem que fazemos isso só porque gostamos de conversar. Não. Porque precisamos mesmo. As enfermeiras se confrontam com situações bastante difíceis e buscar uma tentativa de solução pede muita troca e conversa. Assim via whatsapp cada um pode fazer uma consulta, e quem tem experiência com a questão formulada, ou estudou a respeito, oferece soluções.
Conto aqui um dos problemas apresentados. Um casal pede solução para o fato do bebê, ainda pequeno, solicitar muito colo. Perguntam por alguma técnica, algum manejo apropriado para que ele fique bem apesar de deitado, recostado em alguma superfície. Os pais contam não dispor de tantos braços para corresponder a demanda por colo do filho. Estão muito cansados.
A discussão entre nós foi longa. A solução ficou a desejar. Não encontramos nenhuma razoável. Este texto é uma tentativa de justificar a falta de uma boa resposta à solicitação dos pais.
O pedido é legítimo. Esta é uma queixa recorrente: a demanda dos bebês por colo. Eles pedem e se tranquilizam no colo, fato que indica uma necessidade que supostamente todos os bebês têm, desde sempre. Lembro aqui de que o chamado “sling”, (pano ou qualquer arranjo que permita ao bebê se manter junto do corpo de um adulto que por sua vez mantem braços e mãos livres) data, segundo pesquisas históricas, desde antes de Cristo. Africanos, asiáticos, indígenas, incas têm essa prática incorporada no cotidiano. A palavra Sling pode ser traduzida por faixa, embora hoje já tenha se sofisticado e pode ir além de uma faixa.
Bebês se tranquilizam no colo, de um lado, e temos respostas da cultura – faixa – de outro. A pergunta que pede resposta é porque o contato com o corpo do adulto é de tamanha relevância para o bebê.
A vida psíquica ou emocional envolve a sensorialidade como um elemento central; ela pode ser definida como um conjunto de experiências psíquicas que se desenvolvem em torno dos órgãos de sentido e vem junto sempre com afeto (sensação de prazer ou desprazer). A pele, um dos órgãos de sentido, é uma espécie de roupa contínua e flexível, que nos envolve por toda extensão do corpo inclusive se vira para dentro e reveste partes importantes como a boca, as narinas. De fato, está na origem dos nossos olhos, ouvidos, nariz, boca. O sentido mais intimamente associado à pele é o tato, que é o primeiro a se desenvolver no embrião humano. Para vocês terem uma ideia da complexidade e importância do tema estamos aqui diante de um livro de 427 páginas cujo título é “Tocar, O Significado Humano da Pele”, escrito por Ashley Montagu, antropólogo e humanista inglês (a primeira edição do livro é de 1971). É um tratado sobre a centralidade da pele e das consequências do toque, da falta ou de sua qualidade para o desenvolvimento (a rigor fazemos aqui apenas um recorte para o que nos interessa no momento). Os estímulos sensoriais (pele, olhos, ouvidos, boca, nariz, e aqueles que vêm de dentro) vão se desdobrando em impressões em forma de imagens, fantasias, palavras. O conjunto de sensações vai atravessando o corpo e recebendo significações. As novas vão se articulando com as antigas, se ligando, desligando, ligando novamente. Os estímulos se repetem, a cada vez são reconsiderados estabelecendo diferenças. Esse composto de elementos vai estabelecendo um modo único e pessoal na formação da experiência psíquica.
O adulto está presente nas experiências sensoriais do bebê. Mesmo quando ele é assaltado por estímulos internos (dor, fome, sono), o adulto tem um papel central ao tentar ajudá-lo na administração do desconforto. A ação do cuidador nunca é neutra: sua comunicação com o bebê vai fazendo parte da tessitura do seu mundo psíquico. Cada um de nós é a soma das experiências vividas, que vão se entrelaçando, estabelecendo a memória, um repertório. O que vem de fora – da relação com as pessoas e com o ambiente – ganha uma versão em forma de memória e traços psíquicos, um conjunto de significações.
Embora o bebê nasça pronto para respirar, sugar, digerir, evacuar, ele não tem noção do próprio corpo e de si mesmo. É no contato com um ser humano que o bebê se tornará também humano: vai adquirir um corpo afetivo, isto é, marcado pelo contato com seu cuidador, mãe, pai. Aparentemente passivo o bebê vai recebendo e transformando tudo que recebe, vai INCORPORANDO todos os estímulos que chegam pelos olhos, ouvidos, nariz, pele, sensações cinestésicas (movimento). O pediatra e psicanalista Winnicott denomina esse processo de PERSONALIZAÇÃO, SUBJETIVAÇÃO. É pelo corpo que a vida psíquica se inicia, isto é, o bebê vai habitando o seu corpo, se apropriando dele. A necessidade de colo está diretamente ligada a isso. Ao nascer tudo é estranho e o colo é o melhor lugar para o recém-nascido começar a se familiarizar com o mundo, principalmente o da mãe que o carregou durante a gestação, e devagarinho o do pai ou outro adulto que vá se fazendo próximo, e que lhe garanta um mínimo de familiaridade, de alguma coisa conhecida. O mesmo colo, repetidas vezes, mais uma vez, depois de novo, vai dando a ele um CONTORNO, o reconhecimento de que ele é ele mesmo. A repetição oferecida de fora garante a manutenção de si mesmo do bebê.
O contato com o corpo do adulto dá ao bebê a noção de existência, lhe fornece um contorno de seu próprio corpo. Percebe as batidas do coração, revivendo um ritmo que o acompanhou durante 9 meses. Permite-lhe movimentos no espaço que viveu intraútero e que ainda não pode fazer por si mesmo. O tato, estimulado pela pele na pele, transmite uma língua humana, vital para a sobrevivência. Tocar, acariciar, afagar, SEGURAR, alisar.
Quando encontramos um cachorrinho novo qual é a primeira coisa que fazemos? Acariciar e talvez pegar no colo. Quantos de nós, adultos, não gosta de uma boa massagem? Às vezes receber um abraço nos consola, e não poucas pessoas reclamam que o /a companheiro /a não faz contato físico em forma de carinho. Não é à toa que há muitas terapias de “toque terapêutico”. Lembramos de ter visto uma fisioterapeuta fazendo massagem no rosto de um bebê recém-nascido, mantendo-o debaixo de uma torneira. Impressionante sua resposta com a boa acolhida. Shantala, massagem para bebês, criada na Índia e trazida ao ocidente, tão cantada em verso e prosa é a prova da importância do contato físico.
Mas isso não quer dizer que o bebê tenha que ficar no colo 24 horas por dia. Na medida que a mãe, pai, cuidador, convivem e criam mais intimidade com a criança, eles conhecem melhor qual é a posição e modo como o bebê mais gosta de dormir, quais são os momentos do dia que precisa de mais colo, qual a melhor forma de acalmá-lo, em qual superfície fica mais confortável, qual cômodo da casa fica mais tranquilo, como é a sua relação com o barulho e o movimento da casa.
Participante da Roda de Conversa faz um raciocínio bem interessante: no primeiro mês de vida do bebê ela o manteve muito tempo no colo, e a partir do segundo mês foi mais fácil convidá-lo a dormir no berço. Foi “alimentado” de muito colo o que lhe proporcionou um bom “depósito” que o supre quando sozinho no berço. A mãe já está presente na sua memória. Uma segunda participante escreve: “Como é louco, não é? Cansaço absurdo e um amor sem tamanho por um ser humano que conheço há menos de um mês”. É reveladora nossa perplexidade diante de um recém-nascido. Quem é ele? E afinal o que tanto ele quer? Pede condições para continuar vivo e se manter crescendo. E o colo – como forma de contato, forma de comunicação – é parte integrante dessas condições.
Você pode tentar fazer com que seu bebê se “acostume” a ficar no berço sem a presença de um adulto, ou deixá-lo no chão (o que é indicado) por sua conta, também sozinho no ambiente. Ele vai chorar, chorar muito. Até não chorar mais. A questão é que ele não se “acostumou”, mas desistiu de sinalizar que precisa da presença do adulto. Essa estratégia representa um risco alto para a constituição do bebê; ele é confrontado com uma vivência de desamparo e solidão difícil de administrar. Não vale o risco.
Voltando a nossa questão inicial responderíamos ao casal para “sustentar” por mais um tempo seu bebê que colherão bons frutos logo, logo.





