Puerpério: tema inesgotável

Pós-Parto | 23/03/2026

Começo pedido licença e faço pública a palavra de uma participante da Roda de Conversa de mães com bebês até 3 meses de idade completos.

Ela escreve: “estou sentada no sofá há 20 minutos. Meu marido não está em casa e meus dois filhos estão dormindo. Sinto fome, mas sei que se eu me sentar à mesa uma das duas crianças vai acordar… então decidi conversar com vocês (se refere a própria mensagem que está enviando via whatsapp para o grupo que participa da Roda). Vocês são as pessoas com quem me relaciono, com quem converso”.

Relemos essa frase muitas vezes. Nos deu muito o que pensar. Ela nos conta de uma situação vivida por muitas mulheres, não importa a cidade, o país, a profissão, quanto ganham, a religião, as preferências políticas. A frase comunica a necessidade de contato, de troca com alguém interessado e disposto a ouvir. E que possa ter alguma sintonia com o que está vivendo.

A relação entre as pessoas e os afetos que a permeiam, constituem a base de construção do ser humano, da sua possibilidade de viver. Elas vão sendo modeladas na sociedade, na prática do convívio e vão fazendo parte da cultura, dos valores, normas e regras que a administram. Não somos se não convivermos.

O isolamento da mulher durante o puerpério – estendendo-o até os 3 meses, além da chamada quarentena, é contingente. Isto é, tem relação com o fato do bebê ser muito vulnerável e pedir ainda certo cuidado quando se trata do contato com muitas pessoas, que têm, por sua vez, contato com muitas outras pessoas.

A primeira questão que nossa participante da Roda sugere, é se ela está sozinha, mesmo estando com duas crianças em casa. Podemos dizer que sim, é um estar sozinho muito particular. Ela é quem faz companhia aos filhos: ela os alimenta de presença, de reconhecimento, de conforto, de permanência. Ela quem garante que eles possam dormir pelo simples fato de estar ali, na mesma casa. É ela quem faz companhia aos filhos, e não ao contrário.

A solidão – tema familiar e inspirador para poetas, escritores, contém muitas nuances.

Adolescentes, presos nas telas, cujo contato se dá predominantemente no virtual, idosos sozinhos em casa que passam dias sem conversar. Profissionais, trabalhando em casa dia após dia, sem contato direto com colegas de trabalho, privados de experiências compartilhadas. Esta faceta da solidão tem sido tratada com preocupação por muitos especialistas. A solidão forçada por preconceito, bullying, cancelamento, que gera o isolamento, é a faceta dolorosa da solidão.

Outra faceta da solidão, ao contrário, é valorizada. A solidão como solitude, boa e necessária. Rubem Alves, escritor, se refere a ela como “solidão amiga”. É na solidão, segundo ele, que a proximidade é maior. Dá como exemplo uma caminhada: a alegria está em observar as árvores, sentir o vento, admirar as nuvens, o que é possível quando se caminha só. Diz: “as caminhadas pelo deserto me fizeram forte”. Cita Rainer Maria Rilke, “as obras de arte são de uma solidão infinita”, é na solidão que a arte é criada. Você se torna por um tempo invisível, porque o trabalho na obra de arte não pode ser compartilhado, disse o ceramista Brennand.

Christian Dunker, psicanalista, enfatiza a importância de estar, durante um espaço de tempo, sozinho. Podemos até nos estranhar um pouco, nos perceber contraditórios, um tanto diferente de si mesmo, mais frágeis, tendo que nos suportar a nós mesmos. Há como que uma “suspensão de si mesmo”, uma incerteza sobre nós. Segundo Dunker a solidão pode inspirar a invenção a partir de nós mesmos.

A solidão de quem os artistas e especialistas falam é a mesma da maternidade? Sim e não. Ela tem uma particularidade, que não aparece em nenhuma situação citada: ela é a dois, sendo que o segundo, o bebê, só pode existir, só pode vir a ser, na completa dependência da mãe, a primeira. Mas a obra de arte também, para ser realizada não depende completamente do criador? Não é à toa que utilizamos o verbo criar para indicar tarefa de se responsabilizar por uma criança. Estamos prontos para concluir que cuidar de um bebê é uma arte. Paulo Freire propõe que arte é uma linguagem que aguça sentidos e permite analisar e mudar a realidade. Hélio Oiticica, ao definir arte, insiste na experiencia sensorial e participativa. Fabiana Lopes sugere que a arte é uma resposta “à dor e a delícia” do ser no presente, conectando-se com a incerteza e desafiando tabus culturais.

Além de ouvir, ver, cheirar o bebê (sentidos aguçados), a mãe usa sua memória mais remota e instalada no corpo a favor dos cuidados ao bebê, exatamente com o objetivo de construir uma realidade confortável para ele. Cuidar do bebê é uma experiência sensorial, que na melhor das hipóteses deve ter outros participantes. Envolve renunciar a muitas coisas – trabalho, estudo, diversão, sono – portanto envolve dor – e pode, na melhor das hipóteses, ser também uma delícia, na medida que o bebê cresce e se desenvolve, respondendo ao investimento da mãe. Tarefa sempre encharcada de incertezas, e que é realizada de um modo próprio e não necessariamente como mandam os manuais.

Marion, enfermeira parceira do Gamp, no seu trabalho de acompanhamento de mães e bebês durante o primeiro ano, recebe um telefonema, fora da data combinada, e ouve a preocupação da mãe, cujo bebê passa o dia na creche: ela não consegue extrair leite suficiente para o consumo do filho. Marion a tranquiliza, estuda com ela algumas saídas, faz algumas propostas; poucas horas depois recebe uma mensagem da mãe, avisando, que ela não sabe por que e como, o leite desceu e ela pôde extrair uma boa quantidade. É a ideia do Oiticica, a arte deve ser participativa.

Joice Melo, dessas mulheres que põe o ovo em pé, criou via o Facebook, o Mães que Escrevem, instituto organizado para incentivar mulheres a registrarem suas vivências por meio da escrita. Com a experiência de uma maternidade solitária, convidou, também via o Face, para um encontro de mulheres no Parque da Água Branca. A partir do primeiro encontro, o grupo se potencializou e se transformou num coletivo de mães. Esses encontros presencias se transformaram, mais uma vez, no Blog Mães que Escrevem, agora em sua 17ª publicação. É uma espécie de rede” pública” privada e de acolhimento.

Arteiro e Passos, psicanalistas, escrevem sobre como as mulheres têm tentado contornar a falta de referências maternas e de proteção via os blogs de mães. A transmissão não se dá mais entre gerações, mas entre mães nos espaços virtuais onde se trocam reconhecimento e o “saber-fazer”. As autoras problematizam a questão quando o material veiculado é tomado como verdade, inibindo o uso do próprio saber e inspiração, levando a uma repetição impensada. Isto é, roubando do ato de maternar o que ela tem de arte.

 

Bibliografia

Alves, R. (2002). Um mundo num grão de areia. Campinas. Versus.

Arteiro, I.L.; Passos, M.C. (2022). In Quem é o bebê hoje? A construção do humano na contemporaneidade. Um arranjo possível diante da solidão materna: a escrita em blogs de maternidade. Blucher.

Dunker, C. (2017) Reinvenção da Intimidade. São Paulo, Editora Ubu.

Eva Wongtschowski é psicanalista, participa das Rodas de Conversa do Gamp21 e realiza atendimento clínico.