O título poderia levar a ilusão de que o bebê dos pais é diferente do bebê do especialista. Não, trata-se do mesmo bebê. Mas não costumam andar lado a lado. Faremos a tentativa de apresentar aos pais o bebê tal como é visto pelo profissional, cuja vida foi dedicada a estudá-lo. Estamos falando de Colwyn Trevarthem que teve um livro traduzido para o português e editado aqui. (1) Um livro pequeno, mas recheado de conhecimento e resultado de uma quantidade enorme de estudos e observações. Para vocês terem uma ideia, no final do livro há um QR Code com centenas de títulos que compõe sua bibliografia. Ele reúne achados de diferentes áreas de estudo – psicanálise, neurociências, antropologia, psicolinguística, neurologia. O nome do livro é sugestivo: O Bebê, Nosso Professor. Até gostaríamos de fazer o movimento oposto, de apresentar as observações dos pais a ele. Mas isso não vai dar.
Ele começa a nos contar que o bebê é ativo. Desde o útero. Ali se movimenta, brinca, fica atento e, de algum modo, responde aos sinais que vêm de fora. Os sons, a pressa ou quietude da mãe e como se alternam durante a passagem do tempo. Ao nascer o bebê tem a expectativa de reencontrar quem o carregou e as pessoas cujas vozes ouviu. As iniciativas, as ações que se fazem e não se fazem SOBRE o bebê, mas COM ele. Isto é, o bebê responde às iniciativas dos adultos. Estabelece-se rapidamente uma conversa – versar com – que se dá pela expressão do rosto, pelos gestos, pelo tom de voz, pelos movimentos do corpo do adulto. O bebê fala e responde com o corpo se movimentando, chorando, dormindo. Responde ao ritmo, ao humor, a pressa ou a calma dos pais. Com sua audição, assim que nasce, identifica as vozes que ouvia quando no útero e reage a elas. Chora, mas ao ouvir a voz da mãe/pai que tenta acalmá-lo, contando a ele que não está sozinho, ele para de chorar e se põe atento. O bebê, ainda quando recém-nascido, responde à fala dos cuidadores com suas mãos, movimentando-as de acordo com o que e como lhe falam. Ele é sensível. Todo seu corpo fica atento e interessado no que o adulto lhe propõe e oferece. Percebe as nuances do afeto do cuidador.
Mas nem sempre a conversa é fácil. É preciso tempo, paciência, muita paciência e uma aposta que sempre haverá um momento em que o diálogo se dará com mais facilidade e vai fluir bem.
- “Chega numa hora que a bola de cristal falha. Ficava me perguntando por que afinal ele está chorando agora”.
- “Gente, meu menino está chorando a ponto de perder a voz; imagino que sejam gases, estou desesperada”.
- “O bebê desde ontem não para de chorar. Só quer ficar no colo. Meu Deus do céu. Estou quase louca”.
- “Só quero dez minutos sem ouvir os resmungos do bebê”.
- “O pior é o olhar deles. Parece que estão lendo nossa alma”.
- “A maternidade é uma caminhada muito difícil e solitária. Siga seu coração, oferte o peito, faça pele a pele com o seu bebê que tudo se ajeita”.
Vamos pensar sobre essas observações. A expressão “bola de cristal” é especialmente boa porque nas primeiras semanas é difícil fazer uma leitura do que o bebê comunica; a mãe lança mão de experiências já vividas, mas guardadas nos cantos pouco iluminados da nossa memória, e deve fazer um esforço de se pôr no lugar dele. É esforço e trabalho duro. A ideia de bola de cristal indica que nada é muito claro ou evidente, é preciso buscar. A segunda frase, “estou desesperada” conta que a falta de resposta redonda e definida tira o cuidador do eixo. Daí a mãe falar em loucura e uma convicção de que o bebê reivindica cem por cento do tempo (“só quero dez minutos”). O bebê é barulhento e não necessariamente está cobrando ou se queixando. Mas é isso o que nossa participante da Roda “ouve”, ou entende, e a deixa com uma sensação de impotência. Não poucas vezes as mães dizem se sentir “humilhadas” pelo bebê por não conseguirem acalmá-lo, por algum acontecimento que sai do controle ou é completamente inesperado. Como se fosse esperado que soubessem ou pudessem prever tudo.
A última frase contém uma proposta tranquilizadora e avisa que uma vez em alto mar o melhor é remar, nadar ou boiar. O que quer que seja. Ela sugere que a mulher entregue sua competência humana ao bebê. O apelo ao “coração” recomenda o uso de um certo sexto sentido – que está lá nos recônditos da memória- e fique parecendo também com um bebê. E de fato aí “tudo se ajeita”.
O “tudo se ajeita” é um modo bonito de dizer que o bebê pode mergulhar e ser a mãe, igualzinho como ela se faz de bebê. Faz de conta – e a mãe concorda por um período- de serem os dois um. O bebê se sabe pelo olhar da mãe, daí “ler sua alma”. Ele busca saber como a mãe o vê, o que ela pensa e espera dele. Embora abra mão do tempo, da individualidade, do sono, da vontade de ir ao cinema, de conversar com amigos, de não fazer nada, ela concorda. Em nome da responsabilidade de ser mãe. Nossa participante da Roda tem toda a razão: a maternidade talvez seja a atividade mais solitária e difícil das que se conhece. “Toda leveza do mundo …porque a gente sabe que vai sobreviver”, é o que uma mulher, mãe de dois filhos, o segundo ainda um bebê, conta para as colegas de primeiro filho. Sobrevive-se.
“O Bebê, nosso Professor” é um livro bonito, otimista, maravilhado com as competências e o potencial explosivo de um bebê. E o poder que o adulto, mãe e pai, adquire diante do bebê quando se põe a cuidar dele. Uma dupla respeitável. Mas talvez Trevarthen não conheça os bastidores caseiros para que o milagre se dê; é feito de lágrimas e cansaço extenuante.
Nos primeiros meses os bebês precisam de rotina, de um dia parecido com o outro. Mamam com muita frequência, devem ser ajudados a dormir, a administrar a dor das cólicas, o frio e o calor, o medo, a dificuldade de evacuar, o banho, a troca de posições, a dor de existir. A manutenção por meses dessa rotina é cansativa e eventualmente enfadonha para o adulto, mas completamente necessária. Talvez seja interessante pensarmos que já fomos um deles, um bebê, e cá estamos falando deles. Já com dois meses os bebês conversam – respondem à fala dos pais com vocalizações, o que abre um campo de possibilidades. Quando se canta ele acompanha o ritmo, aos 4 meses começa a pesquisar com as mãos. Os bebês provocam, chamam os pais o que lhes dá um alento porque o bebê toma iniciativa, claramente já é uma pessoa. Eles imitam expressões, imitam a fala do adulto. Isto é, as transformações e aquisições são de fato encantadoras e se constituem em estímulo para continuar cuidando.
Há também muito humor e brincadeira nas conversas do grupo. Uma das mães comenta que seu bebê costuma fazer uma soneca de trinta minutos. Mas quando passa dos trinta “fico perdida, acho até estranho ficar com tanto tempo livre” e acrescenta um sinal de risada, “kkk”. Ou então “A vida das mães é um filme de suspense, com muito terror, comédia e altas emoções”. Além de ser verdade, convenhamos, a definição é poética. Espirituosa é a frase: “Eu sinto uma falta danada de trabalhar….”, ela explica “no meu trabalho eu descansava a mente”. Há de fato muitas observações sobre um cansaço muito próprio deste período que vai além da falta de sono, mas de um cansaço que denominam de “mental”. E outra com muita elegância diz que o marido vai descansar simplesmente por estar indo para o trabalho, desses que a gente faz fora de casa…. e longe da tarefa de cuidar de um bebê.
As mães oferecem um material de pesquisa sobre o cuidado com os bebês que bem poderia compor um dos capítulos do livro de Trevarthem. Acredito que ele concordaria.
Na Roda de Conversa, não poucas vezes, as mães chamam o filho/a de patrão, reizinho, boss. As mulheres se sentem sobrecarregadas, com uma função que em alguns momentos parece impossível enfrentar com um mínimo de resultado. A palavra “humilhação” tem sido usada com frequência; ela aponta para uma sensação de impotência diante do desafio que os cuidados com os bebês representam. “A parte humilhante da maternidade a Globo não mostra”. “Já atendi a porta com o sutiã à mostra trocentas vezes, infelizmente “
(1) O livro ainda tem como autores Aitken Kenneth e Maya Gratier





