O que caracteriza um bebê com sinais de sofrimento psíquico?

Parentalidade | 22/02/2023

Por Mira Wajntal

 

Como entender o autismo?

Hoje em dia, o autismo é considerado uma síndrome comportamental. Há uma vantagem nisso, porque tira-se o peso de se encontrar uma única causa para o autismo, abrindo um rico campo para pensá-lo como resultado da interação de múltiplas causas, quer sejam genéticas, biológicas, ambientais ou afetivas. Não devemos entender o autismo como relacionado apenas a um fator.

A desvantagem é que desde que ele passou a ser descrito desta forma, uma quantidade muito grande de crianças passou a receber este diagnóstico, criando um espectro enorme de casos clínicos, muito diferentes, em um mesmo enquadramento.

 

Como perceber que uma criança é portadora de autismo?

A resposta também não é simples. Atualmente, tanto as pesquisas como as diversas terapias e modalidades de tratamentos apontam para o fato de que quanto mais cedo se intervém, melhor o prognóstico e menos custoso será o tratamento. De qualquer forma, não se deve dar este diagnóstico antes dos 2 – 3 anos. Mas, nesta ocasião, já perdemos a oportunidade de agir, quando há maior neuroplasticidade, possibilitando que se faça uma intervenção antes que se instale definitivamente um processo mórbido.

Então o mais interessante é que possamos saber detectar sinais de alerta de que um bebê não está bem. Realizar uma intervenção em tempo, antes que as estruturas do funcionamento mental se instaurem em definitivo.

A dificuldade de tudo isto é não estabelecer uma linha direta do tipo há a presença de um sinal de alerta, logo o bebê é autista. Isto seria criminoso e iatrogênico, ou seja, um distúrbio provocado pelo tratamento. Em pediatria todo sinal deve ser visto ao longo do desenvolvimento. Um diagnóstico em saúde mental na infância deveria obedecer a mesma regra.

 

Quando um diagnóstico de autismo pode ser conclusivo?

Um diagnóstico não pode ser conclusivo no primeiro ano de vida, mas podemos detectar, a partir de sinais de riscos, possíveis problemas no desenvolvimento do bebê com a finalidade de intervir. Desta forma, o que é um sinal que nos faz perceber o autismo ou o risco para sofrimento psíquico será muito diferente para cada idade.

 

O que caracteriza um bebê que está com sinais de sofrimento psíquico?

As pesquisas feitas a partir dos pressupostos da psicanálise indicam como sinal comum a todas as crianças de risco de desenvolver autismo a ausência de um “interesse pelo interesse” de seu cuidador, em geral os pais.

Os bebês nascem com “a motive for the motive of the other” (Trevarthen). Não é o caso dos bebês que se tornam autistas. Se fizermos uma pesquisa retroativa sobre seus primeiros anos de vida – isto já foi feito em acervo de filmes caseiros de crianças que vieram a receber o diagnóstico de autismo – veremos que em nenhum momento o bebê toma as rédeas da situação (Laznik, MC). Diferente daquele que quando uma mãe brinca com ele, o bebê não só se diverte, como consegue perceber o valor que ele tem para as pessoas que dele cuidam. Quando um jogo de beijos ou cócegas, por exemplo, é interrompido, é esperado que a partir do oitavo/nono mês o bebê passe a fazer provocações para retomar a brincadeira que causava prazer, tanto para ele como para a mãe.

 

Como reconhecer sinais de risco nos bebês?

  • Não fazem contato olho a olho (até os 2 meses);
  • Não fazem qualquer gesto imitativo quando um adulto interage com eles;
  • Não sorriem (3 meses);
  • Não dirigem o olhar quando falam com eles (3 meses);
  • Não demonstram qualquer atitude antecipatória em direção aos adultos que lhes despendem os cuidados, sendo de difícil ajuste à posição do corpo quando carregados (4 -5 meses);
  • Não balbuciam (4 -5 meses);
  • São indiferentes à presença ou ausência do cuidador (4-5 meses);
  • Não apresentam interesse ou atitude de convocar o outro em uma brincadeira (a partir dos 7 meses).

 

Como reconhecer sinais de risco para crianças maiores de 3 anos?

  • Evitam tanto o contato físico como o contato pelo olhar;
  • Tratam as outras pessoas como se fossem objetos;
  • Apresentam fala repetitiva;
  • Têm reações de horror a qualquer perturbação do meio;
  • Apresentam sensibilidade e memória fenomenais para qualquer alteração de rotina, detalhes ou objetos;
  • Suas ações são repetitivas e monótonas;
  • Ficam por longos períodos se balançando.

 

Como é a abordagem da mídia a respeito do autismo?

A maioria das matérias afirmam que a única terapia eficaz seria a cognitiva. No entanto, não podemos dar uma única opção de tratamento para as famílias, uma vez que algumas se darão melhor com uma modalidade e outras com uma outra linha de atendimento. Também haverá indicações distintas conforme o caso e a idade. Terapia Cognitiva, Psicanálise, assim como Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Ecoterapia etc são ações distintas de diferentes alcances. Porém, deve-se ter cuidado para não criar um super agendamento de ações em saúde sobre uma criança. Não é necessário entupir a agenda de uma criança com todas as modalidades existentes. Os familiares também devem ser assistidos. Os diversos profissionais que se envolvem no tratamento da criança devem poder conversar e estabelecer um projeto em comum.

 

Podemos falar em “tratamento” de autismo?

Sugerimos falar em intervenção precoce ou “em tempo” para os pequenininhos, e atenção para com a pessoa portadora de autismo. Hoje em dia, a ideia de autismo envolve uma grande multiplicidade de casos muito distintos – é um espectro muito amplo. Conforme o caso, a idade, situação familiar, escolar, a condição de autonomia, capacidade de realizar as atividades de vida diária, será necessário elaborar um projeto de ações que podem envolver tanto uma esfera de saúde, como educativa ou qualidade de vida e socialização. Neste sentido, é importante contar com o conhecimento de várias áreas de saber que devem aprender a se compor e não disputar terreno ou domínio sobre o assunto.

 

Como avaliar a tendência à medicalização dos alunos, especialmente os que têm autismo, que não se enquadram ao modelo escolar?

A medicação, quando empreendida na hora correta, é bem-vinda. Então a discussão é em torno do que seria a hora correta. Se no tratamento de uma criança com um problema grave ela receber como primeira ação um remédio, a família tenderá a buscar as soluções apenas no remédio. É importante que o profissional possa receber as famílias, escutar os vários aspectos que envolvem seu sofrimento, elaborar uma série de ações para a criança e a família. Após estas primeiras entrevistas e um trabalho de escuta da família, a não ser nas exceções de urgência, a criança pode ser avaliada, junto com o psiquiatra infantil, sobre a necessidade ou não de se medicar.

Toda ação em saúde tem benefícios e riscos. Para alguns casos graves está realmente indicada a medicação. Desde que corretamente ministrada, não é um mal em si. O problema está em achar que esta seja a primeira opção de atenção para uma criança.

Digamos que o caso fosse de uma criança com colesterol ou glicemia alta, a não ser em casos extremos, o médico procuraria interferir na alimentação, que a criança praticasse atividades físicas, melhorasse a qualidade de vida etc. Só medicaria depois de algumas ações neste sentido. Com a criança autista deve ser o mesmo. Infelizmente, hoje em dia, pensa-se em medicar como a primeira opção de tratamento de um sinal de sofrimento e não como uma segunda ou terceira opção. A população, em geral, tem mais acesso a medicamentos do que a uma ação multidisciplinar.

 

Que serviços públicos existem?

Hoje em dia, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) prevê a atenção integral da pessoa com espectro autista. Sabemos que em um país de dimensões intercontinentais, há uma variabilidade muito grande na realidade dos serviços locais.

  • Em primeiro lugar, converse com os profissionais que já acompanham o desenvolvimento do seu filho. Como segunda opção, procure serviços que tenham equipes multiprofissionais. Informe-se sobre as modalidades de atendimentos existentes ao seu alcance.
  • Tome cuidado com grupos e informações que rapidamente declaram um futuro imutável para seu filho. Lembre-se que com trabalho sempre é possível promover mudanças.
  • Não escolha locais nos quais fiquem convivendo apenas com pessoas com o mesmo problema. Para a maioria das crianças e famílias que são portadoras do Espectro Autista a convivência social é importante e saudável. Procure escolas que trabalhem com inclusão e se mostrem interessadas em acolher vocês.

 

Bibliografia / sites para os pais

 

Mira Wajntal é Psicanalista. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Participou do Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP). Integrou equipes de implantação de Hospital-Dia Infantil e CAPS Infantil na PMSP por 14 anos. É autora do livro “Uma Clínica para a Construção do Corpo”, Via Lettera, SP, 2004. Organizadora do livro: “Clínica com Crianças: Enlaces e Desenlaces”, Ed. Casa do Psicólogo, SP, 2008. Atende em consultório adultos, crianças e famílias. E-mail: mira.wajntal@uol.com.br

Eva Wongtschowski é psicanalista, participa das Rodas de Conversa do Gamp21 e realiza atendimento clínico, presencial e online.