Os pais e suas criações

Parentalidade | 10/09/2026

Conto para vocês uma pequena passagem da Roda de Conversa das segundas. Uma jovem mulher, mãe de um bebê pequeno, faz uma pergunta à Doris, nossa enfermeira, e em seguida relata como ela mesma   resolveu a situação sobre a qual perguntava. Buscava um parecer porque, como ela disse, “não encontrei nenhuma indicação em lugar algum” sobre o modo, a forma, como solucionou o problema indicado.

O que nossa jovem mãe conta é que ela criou, inventou, concebeu uma solução própria, e era isso o que a punha atenta e um tanto insegura. Buscava a chancela da enfermeira e a liberdade de fazer um bom uso da sua criação.

Outra participante da Roda nos conta que seu bebê acordou as 5 horas da manhã “como se fosse viajar”, e uma segunda, de modo igualmente divertido, compara a performance da sua filha no peito a ”uma sommelier da teta”: mama cinco minutos na primeira e dá a entender que não quer mais, quando a mãe insiste chora, mas aceita a outra mama, como uma especialista. São expressões criativas que nomeiam momentos trabalhosos do dia a dia tornando-os mais administráveis.

Um vídeo enviado por uma participante da Roda mostra uma cena em que o pai faz exercício com o bebê deitado no chão:  enquanto ele conta de um a vinte levanta uma das pernas do bebê aproximando-a do braço do lado oposto. O bebê gargalha a cada movimento. O pai junta o movimento a um som, que é o da contagem. Ele não só conta, mas faz um som muito particular a cada contagem A mãe se refere a conquista do bebê- a gargalhada- e comenta que esta é “provocada pelo mais absoluto nada das coisas mais bestas”. A frase da mãe, embora não pareça, é inspiradora e propõe questões importantes. O pai inventa uma brincadeira que poderia ser considerada sem graça, talvez do ponto de vista do adulto (nada é besta) mas para o bebê comunica algo importante e bom porque provoca nele uma gargalhada contagiante.

O que esta brincadeira e modo de comunicação do pai com o bebê nos indica é que apesar do pai não fazer uma frase gramaticalmente completa, sujeito, verbo e predicado, ele conversa com o bebê e o bebê responde. Ela não corresponde ainda a língua falada tal qual a praticamos, mas comunica.

Mães com frequência desenvolvem concepções sobre as dificuldades e desafios da maternidade. Uma das participantes da roda escreve: “sem romantizar a maternidade, quando entendemos que o bebê passa por fases, processos, tudo fica mais leve, embora continue difícil. E podemos ter a perspetiva de voltar a dormir a noite toda”.

Os primeiros meses de vida do ser humano são desafiadores. A solução que funcionou na segunda feira, não funciona na terça. O que se acabou de descobrir que faz com que o bebê se acalme, pode não funcionar na próxima semana. O bebê cresce todo dia um pouco, se desenvolve, aprende, muda rapidamente e nossa administração dos cuidados corre atrás.

Outra participante preparou um pequeno e precioso manual que trata do sono do bebê. Faz várias sugestões. Antes de mais nada sugere observar o que ela chama de sinais de sono: sobrancelha vermelha, olhar perdido, movimento de coçar os olhos e a orelha, bocejos. Manter a calma e não ter pressa é a pedra de toque das suas propostas.  São os dois princípios centrais. O terceiro é fazer uma escolha de como se ajudará o bebê a conciliar o sono, e independentemente de qual for a escolha ela deverá ser mantida durante 15 minutos. Mudar de método faz com que, segundo ela, o bebê se mantenha em alerta, tendo um efeito oposto ao que se pretendia. Exemplos de método é fazer o som de “shi” e balançar levemente o bebê, mantê-lo no Sling e andar pela casa, dando tapinhas no bumbum. Tudo devidamente testado.

Vejam, permanecer calma e não ter pressa, manter um modo só de ninar o bebê é uma boa resposta a recorrentes observações de muitas mães que só conseguem fazer o bebê dormir quando saem de casa e elas mesmas se acalmam e passam a usufruir com o que veem e, importante, sem pressa.

O mercado propõe brinquedos para bebês que vão na contramão da palavra-chave da nossa colaboradora mãe: calma. São brinquedos barulhentos, diria até escandalosos, e que se movimentam de modo imprevisível. Vejam o que algumas participantes da Roda contam: “ultimamente o brinquedo preferido do bebê é a caixinha dos controles”; “aqui”, conta outra, “a garrafa pet com feijão é a mais interessante”; “o mercado da maternidade é infinito e inflacionado, muitos produtos são irrelevantes”. Os brinquedos caseiros costumam fazer mais sucesso, assim como as decisões caseiras: “meu marido chega as 20h em casa, se os meninos dormirem antes não vão ver o pai. Decidimos dormir todos as 22h e deu tudo certo para nossa realidade”. Outra conta “antes ficava no quarto, isolada, agora decidi que o bebê dorme entre 21h30 e 22h; então eu vivo, janto, dou banho nele uma 20h30. Tudo melhorou”.

“Infelizmente não sabemos tudo de tudo…, mas sempre podemos mudar o percurso a tempo” escreve uma participante da Roda, isto é, assim como inventamos, reinventamos.

Eva Wongtschowski é psicanalista, participa das Rodas de Conversa do Gamp21 e realiza atendimento clínico.