O lugar da música na vida do bebê

O lugar da música na vida do bebê

Um grupo de músicos, de Minas Gerais, escreve um artigo onde defendem a ideia da importância da música como meio de comunicação com o bebê. Segue um recorte deste artigo.

 

Cada um de nós tem, com regularidade, a experiência de ouvir música. Ela evoca emoções, nos convida ao movimento, e pode produzir mudanças fisiológicas. A resposta de bebês à música não contraria essa observação: eles se encantam com ela. Mesmo antes dos 3 meses os bebês “conversam” com os adultos, vocalizando, realizando movimentos com a cabeça, rosto e membros, o que alguns autores denominam de “musicalidade comunicativa”. Eles propõem que quaisquer atividades musicais com bebês alimentariam suas possibilidades expressivas, aumentariam sua competência para a comunicação, inclusive facilitariam a aquisição da língua materna e o aprendizado da música. Os autores citam trabalhos que “receitam” música para bebês internados em UTI neonatal, o que levaria a uma melhora fisiológica e do humor.

– A escuta musical promoveria uma reorganização neuronal em nível superior, que fortalece primordialmente o hemisfério direito, relacionado ä noção espaço-temporal.

– O som elevaria o grau de excitabilidade de neurônios motores espinhais, a partir de um circuito auditivo-motor pela via retículo-espinhal.

– Curiosamente, segundo eles, a audição apresenta uma capacidade peculiar de desencadear reações motoras mais estáveis, mais acuradas, processando mais rapidamente as informações sensoriais do que os sistemas visual e tátil.

 

De todo modo, o que isso torna evidente é a importância do estímulo auditivo, isto é, do ato de falar com o bebê. A voz humana tem ritmo, cadência, timbre, intensidade. A conclusão inicial do grupo de músicos é que o efeito acima considerado tem mais validade quando o som (música, voz) são endereçados ao vivo, e não por gravação. Há ainda uma conclusão interessante: o ato de cantar para o filho prematuro não só acelera o processo de alta do bebê, mas acalma os próprios pais. Cria-se assim um efeito circular.

 

A pesquisa realizada pelo grupo consistiu em dar aulas de música para 40 bebês acompanhados de seus cuidadores. Isso se deu com bebês entre 3 e 6 meses de idade; nascidos com idade gestacional de 34 semanas ou menos, e 1.500 gramas ou menos de peso. Vários estímulos foram usados: voz, tambores, chocalhos, guizos, maracas. Duas variáveis foram analisadas: emissão de sons vocais, isto é, vogais, consoantes, sílabas canônicas (sílabas repetidas, mã-mã por exemplo) e interação social.

 

Houve uma frequência francamente aumentada de interação vocal entre as crianças do grupo experimental quando comparadas com o grupo de controle (que tiveram apenas duas aulas). As crianças tentavam imitar a mímica facial da professora, seus gestos (palmas, percussão no rosto, no peito). Quando a música que estava sendo cantada e os movimentos da mãe de acompanhar o som eram interrompidos, os bebês moviam braços e pernas como que “pedindo” que a atividade continuasse.

 

Os pesquisadores diferenciaram quatro grupos de cuidadores (pai ou mãe):

  1. Mãe retraída: mal dança ou canta com seu bebê, canta baixinho ou se movimenta muito levemente.
  2. Mãe muito participante: participa muito, experimenta tudo, mas “se esquece do bebê”
  3. Mãe perfeita: preocupa-se que o bebê faça tudo “certo”; movimenta ela mesma os braços e pernas do bebê para que ele “acerte”. Ele, por sua vez, tem pouca oportunidade de experimentar.
  4. Mãe equilibrada: estimula a participação do bebê, que ele mesmo explore e faça uso do tempo a seu modo. Leva em conta quando está cansado ou distraído.

 

Os bebês do grupo experimental, no final do primeiro ano de vida, alcançaram um nível de desenvolvimento global ao nível das crianças com a mesma idade e nascidas a termo.

 

Algumas considerações sobre o texto

A música sem dúvida pode ser considerada um instrumento valioso de comunicação, de estímulo, de campo de interesse para o bebê. Ela tem evidentemente um valor per si, ela mesma, se constitui em estímulo bastante interessante. As famílias atendidas são famílias que vivem em situação socioeconômica muito limitada, em que as aulas, o contato com os professores e a música acabam adquirindo uma oportunidade valiosa de enriquecimento. Mas se trocássemos a música por brinquedos atrativos para bebês e mães, possivelmente o resultado encontrado seria o mesmo.

 

Conclusão: os pais dos bebês devem ser estimulados a fazer o que faz sentido para eles. Cantem se gostam, conversem se gostam, contem histórias, casos, o que melhor lhes aprouver. O central é que a criança participe, seja colocada na roda da vida cotidiana, faça parte. Mais que isso, que se leve em conta o que o bebê mais quer: fazer parte.

Não se dispensam encontros entre pais e bebês para que possam aprender e se inspirar uns com os outros e com quem tiver alguma coisa interessante para ensinar, ou comunicar.

 

Para pensar: como cada um de nós se relaciona com cada um dos 4 grupos de mães?

 

  • Parizzi,M.B.et al. A música e o desenvolvimento do bebê. In Kupfer,M.C. Szejer, Luzes sobre a clínica e o desenvolvimento do bebê. São Paulo, Instituto Langage. 2016
  • Pesquisa realizada no Acriar – Ambulatório da Criança de Risco no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Minas Gerais.

 

Eva Wongtschowski é psicanalista