O leite materno e a amamentação: um tema fascinante

O leite materno e a amamentação: um tema fascinante

Por que fascinante? Para os animais mamíferos – que não têm contato com os humanos – a amamentação se constitui numa função biológica cujo objetivo é alimentar a prole no começo da vida. Simples assim. Para os seres humanos, o ato de amamentar se reveste de muitas complexidades. Como todas as funções corporais, todas elas, recebem nomes e adquirem um valor e sentido que vão muito além da função biológica propriamente. Assim o ato de amamentar é considerado um fenômeno fisiológico e cultural.

Amamentar – independentemente do fato de que as mulheres quando engravidam e dão à luz, produzirem leite – envolve um conjunto de hábitos, crenças, heranças culturais e traz junto múltiplos significados emocionais. É importante enfatizar que alimentar o bebê ao peito não é “natural” e implica em valores, ideias, sentidos, emoções que estão, para, além disso, fortemente ligadas à história pessoal de cada mulher em particular. Basta constatar a polêmica gerada por mulheres que amamentam seus filhos em espaço público. As reações a favor e contra tornam evidente que não se trata de um ato “natural”, mas carregado de “cultura”. Há mães que se sentem pressionadas a pedirem licença para oferecer o peito ao bebê quando na presença de outras pessoas que não seus familiares.

Embora na cultura humana os bebês pudessem sobreviver desde sempre graças ao leite materno não poucas vezes o valor e importância do leite e do ato mesmo de amamentar foi colocado em dúvida.  Hoje é sobejamente conhecido o fato de que o leite materno tem todas as qualidades necessárias para alimentar a cria humana: do ponto de vista nutricional, imunológico, emocional e mais que isso, as crianças amamentadas ao peito tem maior possibilidade de se desenvolverem do ponto de vista intelectual, isto é, são em média mais inteligentes. Cesar Victora, eminente médico epidemiologista de Pelotas, especialista em saúde comunitária nas áreas de amamentação e nutrição desenvolveu longos e minuciosos estudos acerca do tema que o tornaram um profissional mundialmente requisitado.

Justamente pelo fato de que amamentar não é “natural”, toda mulher precisa de apoio para tal.  Não se trata de instinto, de já saber ou ter que saber. Aprende-se a amamentar. Mas o apoio se faz necessário também para MANTER a amamentação. José Agripino de Almeida, um dos pioneiros da política de aleitamento materno no Brasil e líder na iniciativa de criação de Bancos de Leite Humano no mundo, conta uma experiência simples e de desdobramentos surpreendentes. Em torno do ano de 1985 a empresa Icotron, sediada em Gravataí, Rio Grande do Sul, implantou um banco de leite na própria empresa que tinha muitas mulheres em idade fértil entre suas funcionárias, mas que amamentavam seus bebês por muito pouco tempo. As mulheres deixavam seus filhos em creches próximas à residência para poupá-los do frio intenso que faz no sul na época do inverno. Para reverter o desmame precoce a funcionária mãe era convidada a ir ao banco de leite instalado na própria empresa três vezes ao dia, retirar seu leite, que era resfriado e acondicionado em embalagens isotérmicas, que ficavam à sua disposição na portaria da fábrica e podiam ser retiradas na saída do expediente. A funcionária levava os frascos com leite até a creche no momento de buscar o filho, os frascos eram acondicionados na geladeira da escola e oferecidos no dia seguinte. Ao buscar o filho a funcionária retirava os frascos vazios para serem lavados e preparados para receber mais leite. Quando em casa amamentava o bebê em livre demanda. O fato de retirar o leite três vezes ao dia mantinha a produção, poderia ser ofertado pela manhã, à noite, e nos fins de semana. O resultado da iniciativa foi tão bom que havia leite sobrando e parte dele era doado a uma maternidade da região que o oferecia aos prematuros. Para, além disso, foi uma experiência inspiradora.

Amamentar é e deve se manter como um ato de vontade. Diferente de outros momentos da civilização humana a mulher hoje pode escolher se quer ou não engravidar. O mesmo vale para a amamentação. Amamentar um filho se constitui em tarefa exigente, e cada mulher escolhe e decide se pode e quer enfrentá-la.

A indústria de alimentos produz uma infinidade de leites artificiais e apesar de um marketing agressivo, parcialmente falso e eticamente condenável (o leite artificial NÃO possui as qualidades do leite materno) eles podem substituí-lo quando necessário, mas certamente não é o mesmo leite. Há que se levar em conta que as mulheres precisam e querem trabalhar, e eventualmente manter a amamentação por muito tempo pode ser inviável.

Uma olhadinha para a história é sempre util. Na Europa, na época da vinda da família real para o Brasil, não era de bom tom mulheres amamentarem: não era considerada uma ação digna de damas!!!!!Quem amamentava as crianças eram as amas de leite, que não poucas vezes prejudicavam a amamentação de seus próprios filhos. Amamentar, ou não, estabelecia uma distinção social. Havia as notícias falsas (sempre as houve). Por exemplo, se dizia que a relação sexual “corrompia” o leite.

No século 19 o Estado se utiliza da medicina para reverter a situação dos cuidados com os bebês. Buscou-se na biologia, na naturalização, no instinto uma tentativa de convencer as mães a amamentarem e garantirem a sobrevivência dos recém-nascidos, transformando a escolha em um “dever sagrado”. Mas os incentivos à amamentação visavam apenas à saúde dos bebês. Um dos objetivos do Estado era manter as mulheres em casa, para que não competissem no mercado de trabalho, com o universo masculino. Em 1838 um médico afirmava, em trabalho acadêmico, que as mulheres que não amamentavam corriam mais risco de contraírem doenças. A cada tempo vão se “construindo” teorias que se transformam em condicionantes sócio culturais. As mulheres administraram a pressão criando a ideia do “leite fraco”, uma resposta à impossibilidade de amamentar ou ao não desejar fazê-lo.

As novas políticas públicas de apoio à mulher, a licença maternidade, bancos de leite (onde a mulher pode ser acompanhada nas suas dificuldades para amamentar), centro de referência de cuidados para a mulher transformaram o cenário da amamentação. Na década de 90, uma pesquisa realizada entre mulheres que alimentaram seu bebê ao peito, com sucesso, recebeu essa resposta de uma mãe adotiva: “A receita de sucesso eu não sei, mas acredito que para que uma mãe consiga amamentar, independente de ser adotiva ou não, precisa antes de tudo ser acolhida pelo profissional da saúde…. Acho que para amamentar, ela precisa ser amamentada, acolhida, ela precisa de peitos, de peitos à beça”. “Leite fraco”, ou impossibilidade física de amamentar, é na maior parte das vezes resultado de falta de apoio, seja de um profissional e/ ou da família.

A complexidade biológica do leite é impressionante, conforme pequena pitada da descrição de João Agripino de Almeida:

– Elevado teor de IgA-secretora representa uma resposta à imaturidade do sistema imunológico do recém-nascido;

– A relação metionina-cisitina presente no leite aponta para uma adequação à incapacidade inicial do bebê para realizar a transulfuração destes aminoácidos;

– Baixo poder tamponante, um ajuste à necessidade gástrica. Lípase lática, uma compensação para seu déficit nos primeiros dias de vida; quinonas e vitamina E necessárias para proteger a mucosa de danos oxidativos;

– Presença de fatores de crescimento no leite estimulam os sistemas vitais do bebê;

– Os ácidos graxos poli-insaturados da cadeia longa favorecem o desenvolvimento do sistema nervoso central; os olissacarídeos nitrogenados possibilita a instalação de flora bífida, que exercerá um importante papel protetor no trato intestinal;

– Os ácidos graxos de cadeia longa favorecem o processo de mielinização; a composição balanceada e a osmolaridade não permitem a ocorrência de sobrecarga para os rins imaturos.

O autor analisa o que chama de “ciclo entero-mamário”: a mãe transfere para o filho, via leite materno, sua memória imunológica com base na história pessoal de contato com agentes enteropatogênicos que existem no lugar onde vive. Assim o leite de uma mãe que mora no subúrbio de Fortaleza é diferente do leite de uma mulher que mora numa cidade do interior do Paraná.

Ecossistemas diferentes têm patógenos diferentes, e portanto, cada mulher desenvolve um tipo de imunidade que passará para o filho. Cada mulher tem uma memória biológica e, portanto uma resposta imunológica determinada. O autor se refere a uma transferência de identidade molecular, construída socialmente (isto é, onde e como cada mulher vive), decodificada imunologicamente e transmitida fisiologicamente a seus filhos. O leite que vem na lata, ou no pacote não consegue copiar esse sistema biológico altamente eficiente além do fato de ser o mesmo para todas as crianças. Em relação a isso o autor nos responde porque há tantos leites artificiais diferentes.

Vejam que interessante: o leite humano tem vários sabores e aromas, dependendo dos alimentos que a mãe consome. Então cada dia é uma surpresa para o bebê. O leite nunca tem gosto igual. Mais interessante ainda é o fato de que há uma relação direta entre o grau de facilidade com que o bebê vai aceitar as variações no cardápio da sua dieta depois do desmame. Isto é, o bebê vai sendo introduzido aos mais variados sabores e aromas durante sua amamentação, sabores e aromas que fazem parte do cardápio da mãe. O leite materno nunca se torna monótono: é uma festa de gostos. Daí o esforço da indústria de alimentos em oferecer vários leites processados, para que o bebê não canse do mesmo gosto. O corpo humano é mesmo um caixa de surpresas.

 Eva Wongtschowski é psicanalista

 

Bibliografia

Almeida, João Agripino Guerra : um híbrido natureza-cultura. Rio de Janeiro, Editora Fio Cruz, 1999

Victora, Cesar ET AL. Tendências e diferenciais na saúde materno-infantil: delineamento e metodologia das coortes de 1982 e 1993 de mães e crianças de Pelotas, Rio Grande do Sul. Cadernos de Saúde Publica, Rio de Janeiro, V12, N 1, p.7-14, 1996