As mães de bebês estão cansadas. Muito cansadas.

As mães de bebês estão cansadas. Muito cansadas.

Não é nenhuma novidade que o bebê humano precisa de muitos cuidados e durante muitos anos. E também não é nenhuma novidade que nos primeiros tempos da vida, a pessoa que alimenta o bebê se torna a pessoa mais importante por garantir a sua sobrevivência física e psíquica, pela disponibilidade e presença.

Uma vez que isso está dado desde sempre, desde que o homem é homem, o que há de novo, o que mudou para o fato das mães estarem tão sobrecarregadas, se lamentando de tanto cansaço, e sentindo-se pressionadas pela infinidade de tarefas que têm pela frente? E mais que isso, por que o trabalho de cuidar do bebê se complicou tanto? Ou sempre foi complicado?

 

Uma das mudanças se refere ao fato de as mulheres passarem muitas horas sozinhas com o(a) filho(a). Bebês, principalmente no primeiro ano precisam de assistência para tudo: devem ser alimentados, mantidos com as fraldas limpas, banhados, ajudados a conciliar o sono, levados para passear, precisam de um ambiente apropriado onde possam brincar. Precisam de conversa e de colo, alívio para suas cólicas e mal estares. No primeiro ano de vida o bebê faz o maior e mais importante conjunto de aquisições: senta-se, engatinha (ou se arrasta), anda, aperfeiçoa a coordenação motora envolvendo todo o corpo, alcança e pode segurar os objetos com a mão, leva alimentos à boca sozinho, portanto, a coordenação mãos-olhos se sofistica muito, vocaliza primeiro e depois começa a falar as primeiras silabas e palavras. É um mundo de transformações.

 

Mas e a mulher? Precisa comer, tomar banho, dormir, preparar sua refeição, manter a casa limpa, abrir a gaveta e encontrar uma roupa limpa…. Pode parecer um tanto estranho, mas é como se essas condições não estivessem mais sendo possíveis de manter. Temos encontrado muitas mulheres cuidando de bebês sem ajuda!  Ou com pouca ajuda dos companheiros quando chegam em casa a noite, também cansados…A mulher não tem com quem revezar, algumas horas, uma pausa para dar uma espiada pela janela de casa. As avós dos bebês, com frequência, continuam mantendo jornadas de trabalho fora de casa, ou já cuidam de netos de outros filhos, ou ainda moram em cidades distantes. E há aquelas que não se dispõem, pela razão que for, a cuidar do neto e do puerpério da filha. Há situações onde a filha prefere ficar só a enfrentar conflitos já conhecidos com a mãe. Mas onde estão as tias, primas, vizinhas, amigas que dão uma passadinha, preparam uma refeição, passam um pano na casa e mantém um dedo de prosa?

 

Já ouvimos de várias mulheres a importância que o pai do bebê e companheiro pode vir a ter nestes primeiros meses do pós-parto.  Algumas garantem que sem o companheiro não só pela presença, mas dividindo de fato a responsabilidade pelo filho, não teria sido possível passar pela experiência de um modo suportável. Claro, que ir dividindo as inúmeras tarefas que envolvem o bebê e a casa é importante, mas na observação destas mulheres é a atitude do companheiro se coresponsabilizando pelo bebê e por tudo que vem junto, que fez a diferença.

 

Responsabilizar-se por um bebê leva uma pessoa (seja ou não a mãe biológica) a uma vivência muito particular: fica diante da dependência e vulnerabilidade do recém-nascido durante 24 horas, empresta seu corpo e presença para alimentá-lo, revolve velhas lembranças das próprias fragilidades, fica diante da própria impotência. Winnicott, psicanalista inglês, se refere a um estado de sensibilidade aumentada da mulher ao cuidar do bebê nas primeiras semanas de vida, ao qual dá o nome de “preocupação materna primária”; neste estado a mãe fica fortemente ligada ao bebê, dada suas necessidades e dependência, de modo a se  identificar com o bebê como se sentisse como ele sente. A identificação com o bebê pode ajudar a mãe (ou o cuidador) a se aproximar das necessidades do bebê, mas por outro lado, essa aproximação é bastante exigente do ponto de vista psíquico. É uma vivência difícil, desafiante e a presença de outras pessoas convivendo com a mãe facilita esse momento de transição.

 

Ter um filho implica na reorganização da vida do casal, da família; implica em ter novos papéis sociais, em que o percurso anterior de trabalho, de vida social ou de estudos é interrompido. Para, além disso, ainda se espera que a mulher esteja feliz e realizada. O que evidentemente não costuma ser o caso. A satisfação com a nova função pode demorar um bom tempo para acontecer.

 

Antigos rituais em forma de redes de cooperação foram abandonados (se mantém em comunidades indígenas, ou distantes dos grandes centros). A mulher e o homem têm que dar conta sozinhos na esfera privada, das inúmeras mudanças que se desdobram do nascimento de um filho. Esta é uma das razões pelas quais o risco de adoecimento das mulheres é maior no pós-parto do que na gestação ou em qualquer outro momento de suas vidas.

 

Poderíamos supor que o avanço da medicina e da tecnologia facilitaria a vida dos pais no dia a dia dos cuidados. Há remédios e especialistas para qualquer desconforto: pediatras, gastro pediatras, dermatologistas para resolver desconfortos com cólicas e gases, refluxo, erupções de pele, resfriados e tosse, roncos. Tecnologia em forma de câmeras que vigiam o sono do bebê, copos, colheres, bicos de mamadeira, dezenas de marcas de bombas elétricas para retirar leite, chupetas, qualidades de leite em pó, cremes, aparelhos os mais diversos para limpar o nariz, aparelhos emitindo sons de todo tipo para facilitar o sono. Para citar alguns. Sem falar de roupas, as inúmeras marcas de fraldas, almofadas e redes para o banho, chás e vitaminas para as mães, marcas de sabão para as roupas e sabonetes para o banho, tapetes e acessórios para o bebê. A lista é imensa. Nossa pergunta é se essa oferta ilimitada de produtos de fato facilita ou complica mais que o necessário a vida dos pais. Porque afinal, além de escolher, ainda se tem que pagar por eles.

 

Poderíamos supor que o calendário de vacinação fosse um tema definido e claro. Onde e quando. Não, há sempre a possibilidade de vacinar o bebê no posto de saúde ou em clínicas privadas, a complexidade da vacina e o preço variam de acordo com a escolha. Para além dos diferentes produtos que podem ser utilizados para diminuir o desconforto e dor. O onde e quando se multiplicam e se tornam mais um problema a ser resolvido.

 

A amamentação e o sono são questões delicadas no percurso da mãe e do bebê. Há um número incalculável de blogs e sites com sugestões e indicações de como fazer e de como administrar as dificuldades envolvendo o amamentar e o organizar o sono do bebê. De algum modo todas essas “influências” substituem o que antes era providenciado pelas gerações das avós, bisavós, tias e primas mais velhas, a vizinha. E todas essas “influências” podem facilitar sem dúvida a tarefa, mas quando não ajudam, a mulher se desespera.

O desespero, a dúvida têm encontrado um caminho interessante: as Rodas de Conversa que funcionam via whatsapp. Para além das centenas de informações – sobre outro tanto de assuntos – há um desdobramento importante. A roda se transforma numa comunidade de pessoas, que vivem a mesma situação – cuidar de filho recém-nascido – e que enfrentam dilemas, preocupações semelhantes. Apesar de certa confusão por conta do grande número de mensagens, estabelece-se de fato uma conversa e troca. A solidão da mulher que passa muitas horas sozinha com seu bebê se resolve, em certa medida, por essa possibilidade de comunicação. Há uma “vizinha”, “amiga”, que responde e conta sobre sua experiência, e o que fez e funcionou na mesma situação. O grupo de whatsapp faz às vezes de uma pequena aldeia, bem simpática e solidária. Desejos de boa sorte e acenos de que tudo vai melhorar adoçam a conversa.

 

Eva Wongtschowski é psicanalista

Saiba mais em Roda de Conversa