A mãe dedicada comum

A mãe dedicada comum

Esse é o título que o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott propôs à produtora de T.V. BBC no verão do ano de 1949 para nomear uma de suas palestras.

Importante estudioso e pesquisador sobre o tema da relação mãe-bebê ele contou à responsável pela produção das palestras que ele não tinha a menor intenção de dizer às mães o que elas teriam que fazer com seus bebês, mesmo porque, ele mesmo, não sabia. O que ele queria fazer era falar às mães sobre as coisas que elas fazem bem, que simplesmente fazem. Vai além dizendo que constituía uma exceção bebês serem cuidados por especialistas. É claro que ele recebeu muitas críticas, algumas até muito ácidas: que ele era muito sentimental, que idealizava as mães, achando que são sempre ótimas, que não percebia que algumas são inviáveis. Para, além disso, que afinal as crianças são afetadas por problemas psicológicos (envolvendo o sono, alimentação, crescimento, aprendizagem, relacionamento).

 

Antes de continuar com as considerações de Winnicott, podemos pensar um pouco sobre o que ele diz. De fato hoje as mães são pressionadas pelos especialistas a fazerem tudo “certo”, de acordo com os achados da ciência. O pediatra, contando os especialistas em alergia, em infecções, em crescimento, o fonoaudiólogo, o pedagogo, o psicólogo, o nutricionista, o fisioterapeuta…. todos, sem exceção têm centenas de lições a dar aos pais sobre o que, como, quando oferecer para as crianças. Todas as propostas se apresentam como essenciais, completamente necessárias para garantir que as crianças sejam saudáveis e inteligentes. Winnicott propõe desmanchar as certezas. As crianças apresentam mesmo dificuldades ao longo do seu desenvolvimento, e as mães definitivamente são seres humanos, portanto, falíveis.

 

Nossa experiência na Roda de Conversa do Gamp 21 tem indicado como as mães e os pais buscam, de fato, por respostas infalíveis e únicas dos especialistas: às vezes as propostas até ajudam, mas quando os pais comparam as respostas entre os diferentes especialistas consultados e elas não são iguais, o conforto inicial que a resposta traz acaba criando mais dúvidas, quando não perplexidade. Isto é, os especialistas têm pontos de vista conflitantes entre si.

 

Tem sido muito interessante e enriquecedor acompanhar a conversa entre as mães no grupo de whatsapp da Roda de Conversa. As mulheres trocam todo tipo de informação, desde o que seus bebês fazem, passando por arrumação do berço para o bebê dormir em segurança, indicação de brinquedos, que providências tomar diante de dermatites, alimentos sem adição de leite, intervalo de mamadas, iniciação da alimentação e assim vai pelos mais diversos temas. Uma coisa é certa: conversar, trocar experiências, falar dos impasses, das surpresas que estão sempre presentes no cuidado com bebês é um antídoto para as apreensões e dúvidas, legítimas e esperadas, que toda mãe, sem exceção, tem. As mães, elas próprias se tornam” especialistas” para outras mães, com base na experiência já construída que cada uma vai fazendo. São” especialistas” porque já testaram modos de administrar os impasses e dificuldades. Quando uma das mães do grupo conseguiu tirar o bebê da sua cama e colocá-lo no seu quarto e berço, ela conta essa experiência para outras mães do grupo que enfrentam o mesmo dilema inspirando-as a tentarem também.

 

A pandemia, o fato de muitas avós manterem ainda sua atividade profissional, tem deixado os pais muito sozinhos no cuidado com seus bebês. O grupo é um substituto para aquela família onde diversas gerações conviviam muito próximas. Embora as mulheres tenham faixas etárias muito próximas e são na maior parte mães de primeira viagem, há tantas experiências e decisões em curso que sua transmissão e conversas em torno vão proporcionando a cada mãe incentivo para encontrar formas mais tranqüilas de cuidar do filho.

 

A Roda de Conversa do Gamp 21 tornou-se uma comunidade. Seus participantes têm muita coisa em comum: filho pequeno, trabalho, acesso a todo tipo de informação, gosto pela conversa, e se consideram todas viajando no mesmo barco. Compartilham da desventura de noites mal dormidas, problemas com a amamentação, choro indecifrável dos bebês, cansaço, apreensão com a volta ao trabalho, ciúmes do bebê, relação com as famílias… O grupo estabeleceu um laço solidário, administrado com cuidado pelas psicanalistas e enfermeiras participantes, que faz as vezes das alianças da aldeia, com a vantagem de não ser uma aldeia. O participante vem de várias partes do Brasil onde as diferenças de clima, hábitos, bens culturais, dificuldades e soluções de problemas práticos nos dão uma dimensão do tamanho do nosso barco.

 

Não é pouco ter um filho, cuidar de um bebê. É uma tarefa complexa, cansativa e exigente, que no primeiro ano de vida envolve os pais, direta ou indiretamente, 24 horas por dia. E para alem disso envolve aspectos de nossa vida psíquica inconsciente, que nem mesmo nós conhecemos. Esses aspectos são colocados em movimento, apesar de nós, sem que tenhamos nenhum controle sobre eles. O laço entre filho-mãe, filho-pai, mãe-pai nos convoca desde nossa história pessoal, nossos próprios temores e angústias. E é exatamente isso que nos torna humanos.

 

Voltando a Winnicott, ele nos lembra que as mulheres e os homens antes de serem mães e pais trabalham, se relacionam com amigos, passeiam, namoraram, praticam esporte, vão ao cinema. A gravidez e a chegada do bebê exigem uma reorganização da vida e mais que isso a mãe se esforça para se adaptar visceralmente às necessidades iniciais do bebê. Tal a proximidade entre os dois. Vejam que reviravolta.

 

O bebê não precisa só ser alimentado com leite, ou ter as fraldas trocadas. Ele precisa da PRESENÇA dos pais. O que é dramático é que sobre essa presença não é possível escrever nem oferecer orientação, dar dicas. Presença é o que a mãe e o pai têm de mais próprio e pessoal. Winnicott lembra que não se encontra nada nos manuais de puericultura sobre o tema, ou hoje nos blogs e sites da internet. Quando pegar o bebê no colo, o que lhe dizer, como dizer, quando mudá-lo de posição, quando deixá-lo à sós, como embalá-lo. A presença dos pais é que vai dar a possibilidade ao bebê de se tornar um ser, independente, diferente dos pais, com personalidade própria. Os mecanismos psíquicos que aparecem numa idade ainda muito precoce necessitam de tempo para se estabelecer como um mecanismo mais ou menos estável nos processos que se manterão por toda a vida. As crianças necessitam cuidados e atenção por muitos anos.

 

Winnicott faz uma observação que nos interessa muito: ”com o tempo o bebê precisa da mãe para ser mal sucedido em sua adaptação – e esta falha também é um processo gradual que não pode ser aprendido nos livros”. Isto é, não dá sempre tudo completamente certo com o bebê. Ele não consegue rolar na cama assim que começa a tentar, esforça-se para alcançar um objeto, mas não chega lá. Winnicott enfatiza a importância de a criança conviver com frustrações e dificuldades e poder ficar bravo com isso.

 

Pais se perguntam se foram e estão sendo bons pais. É preciso considerar que pais também passam por situações difíceis (adoecimento, perda de emprego, conflitos familiares) e podem ter mais ou menos condições de oferecer ao filho o que gostariam. Como diz Winnicott “tudo parece muito simples quando vai bem”, mas vale a pena fazer a pergunta, afinal o que quer dizer “tudo vai bem”? Ele responde de uma forma também muito simples ao dizer que quando os pais se responsabilizam pelo bem-estar do filho, quando consideram isso como função deles e o fazem do melhor modo possível, a aposta que ele faz é que tudo dará certo.

 

 

Eva Wongtschowski é psicanalista

evawongtschowski5@gmail.com

www.gamp21.com.br

Texto publicado no Blog Papo de Mãe da UOL em 22 de setembro de 2021