A interação entre a mãe e o bebê, na gestação

A interação entre a mãe e o bebê, na gestação

Quando pequena eu ficava imaginando como seria o mundo antes de meu nascimento. E me perguntava se ele continuaria existindo, enquanto fechava os olhos. Ainda hoje gosto de ver fotografias do casamento de meus pais, e conto para os meus filhos como os seus avós se conheceram e como cada um vivia com sua família de origem.

As crianças, e não apenas elas, ficam fascinadas quando contamos sobre seu nascimento, como eram e o que faziam quando mais pequenas ainda.

Afinal, quando começamos a existir? Haveria alguma espécie de memória em nossas células daquilo que nossas mães viveram enquanto nos esperavam? A palavra não poderia ser mais adequada: esperar diz de ter esperança, aguardar, desejar, supor, confiar. Eu acrescentaria, apostar.

Aqueles que esperam pela chegada de um filho(a) se perguntam como serão enquanto mãe e pai, e se escolheram o momento e a pessoa certa para viver uma aventura deste tamanho. Afinal, 40 semanas de intenso trabalho psíquico parecem insuficientes para dar conta do recado.

Durante a gestação a vivência do tempo é bastante intensa. Além de todas as mudanças do corpo, em marcha, há uma espécie de ponte com o passado, com o lugar de filha(o), e com o futuro, com o lugar de mãe/ pai. Memórias, tentativas de antecipar como será a vida, muitas perguntas, poucas respostas.

Mas afinal quando e como começa a interação entre uma mãe e seu bebê em gestação? Vou arriscar um caminho… Sabemos que nenhum dos dois nasce pronto para essa interação, nem a mulher e muito menos o feto. No entanto, a simples presença do bebê ativa o imaginário materno que começa a apostar no nascimento de um ser humano único, singular. O bebê imaginário permite os melhores sonhos, mas também medos e pesadelos.

No início a mulher fica mais silenciosa, emotiva, ensimesmada, independentemente da gestação ter sido desejada, ou não. Pequenas mudanças, decisões ou descobertas começam a dar materialidade à gestação, como a escolha da equipe obstétrica e protocolos de saúde antes desconhecidos, ouvir o acelerado coração do bebê, os clássicos enjoos (que nem sempre acontecem), os seios maiores, e uma sonolência quase absurda.

As mães, e também os pais, criam expectativas em relação à saúde do bebê, se é normal ou não; em relação ao sexo, pois ter uma menina é muito diferente do que ter um menino; a difícil escolha do nome e sobrenome que insere a criança na linhagem familiar; e alguma reforma na casa para abrir espaços para acomodar o bebê. Não é pouca coisa.

A interação entre mãe-pai e bebê é sempre uma construção – lenta e profunda, não sem conflitos e encantamentos. Um marco importante acontece por volta da 18ª ou 20ª semana de gestação, quando os movimentos do bebê começam a ser percebidos. O que se mexe dentro de mim? A resposta não é nada romântica porque no início a percepção dos movimentos do bebê são confundidos com gases intestinais. Um processo de diferenciação entre a mãe e o bebê e que pode durar uma vida inteira é colocado em marcha.

No início a mulher desconhece e estranha, mas aos poucos reconhece e nomeia: isto é contração uterina, isto é movimento do bebê, isto é um pé, isto é a cabeça, isto faz parte da gravidez, isto eu ainda não sei o que é. Mais tarde pai e mãe estranham, observam e nomeiam: isto é sono, isto é fome, isto é cólica, isto é raiva, isto é tristeza, aquilo nós ainda não sabemos.

A mãe, e também o pai, tornam-se intérpretes desses movimentos, a partir de referências pessoais e culturais. E assim temos bebês ativos, agitados, agressivos, delicados, sonolentos, sonhadores, jogadores de futebol ou bailarinas…

Observar e interpretar são funções da maternagem. Observar os movimentos do bebê permite uma espécie de compreensão de seu ritmo, seja na gestação ou após seu nascimento. O reconhecimento do bebê enquanto outro, diferente de mim, mesmo que hospedado no meu corpo permite uma “comunicação embrionária” entre a mãe e o bebê. Aos poucos a mãe, e também o pai, começam a observar padrões de comportamento: o bebê se movimenta quando a mãe se deita, quando escuta a voz do pai, quando os pais brigam, e se aproxima da fonte de calor quando sente as mãos do pai, ou da mãe. Tudo é muito íntimo, e começa a se estabelecer uma comunicação silenciosa, um diálogo tônico-emocional entre a mãe e o bebê, com uma sensível inclusão do pai.

No terceiro trimestre a cena do parto se impõe e a gestante se prepara para o nascimento do bebê real, “de verdade”. Se ao nascer, o bebê traz consigo memórias que lhe permitem um reconhecimento mínimo do ambiente materno (batimento cardíaco, ritmo respiratório, cheiros…) quando nasce precisa dar conta da transição para um ambiente de descontinuidades: fome e saciedade, frio e calor, presença e ausência da mãe ou cuidador, sons e barulhos, entre outros.

Os bebês humanos nascem prematuros e precisam da presença contínua da mãe, e/ou do pai que deseje, confie e aposte na sua capacidade de cuidar, e na capacidade da criança caminhar para uma crescente autonomia.

Anna Mehoudar é psicanalista do Gamp21 

Texto publicado originalmente no Papo de Mãe

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